sábado, 10 de janeiro de 2015



VALE ESCURO E FRIO

O sol brilha no firmamento intensamente
lançando seus raios sobre a terra,
mas há um vale tão escuro e frio,
onde rastejam terríveis serpentes
destilando o veneno do ódio e da guerra
derramando vinho tinto  diante de um cálice vazio.
Serpentes possuídas pelo mal
rastejando sobre o leite e o mel
deixando  o gosto azedo
espalhando o gosto do fel.
O cálice do tinto sangue exposto ao mundo
manchando o solo e as páginas da história,
marcando  um tempo bestial em cada alma,
Gritos que ecoam num vale profundo
devorados pelo silêncio medonho
que cobre toda luz e nunca se acalma,
Anjos inertes espalhados pelo chão,
olhos e lábios cerrados para sempre
sem poder realizar os  sonhos,
devorados pela escuridão.
Falta amor naquele vale escuro e frio
rasgado pelas garras afiadas da insensatez
 que dilacera corpos e almas  explicitamente.

Há tanta dor naquele vale escuro e frio
dominado pela boca sedenta do mal
que toma o vinho tinto da vida constantemente.
Assim é aquele vale:
Terrível,
Caótico e real...
Cenário bestial.

Jorge Floriano. 


Publicado no Livro: "Anuário Poético de Língua Portuguesa"

THS Editora
Editor: Lelé Arantes
Projeto Original: Lelé Arantes
Editoração Eletrônica: Kamila K. Tagliaferro
Capa: Moisés Jr.
Desenho da Capa: Maria Antonia Ferreira Arantes
Secretário: Ésio Silveira Junior
Parceiros:
Academia Rio-pretense de Letras e Cultura ( ARLC )
Academia Rio-pretense Maçônica de Letras
Instituto Cultural Jocelino Soares
Secretaria Municipal de Cultura
Sugaring - Delícias e Gostosuras
Alexandre Costa, secretário municipal de cultura
Antonio Carlos Del Nero, presidente da ARLC
Eduardo Carlessi, chef confeiteiro.




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014



A OUTRA FACE DO NATAL

Era noite de Natal...
No alto dos edifícios, as luzes coloridas contornavam figuras natalinas. Eram pinheiros, sinos, estrelas; tudo que lembra o Natal. Entre a bela decoração, crianças famintas reviravam latas de lixo, disputando restos de alimentos com os cães...
Numa rua próxima à igreja da redentora, João Messias, um mendigo, caminhava com os olhos banhados em lágrimas.
Sentou-se na calçada, cobriu as pernas com alguns jornais velhos, encostou-se no muro e ficou olhando para a enorme casa a sua frente.
No quintal, havia um Papai Noel de gesso iluminado por uma luz vermelha. E, ao lado da janela, um pinheiro com uma estrela no seu ponto mais alto.
De toda a decoração, o que realmente chamou a atenção de João Messias foi o Papai Noel. Ele não tirava os olhos úmidos dele.
Depois de algum tempo, saiu da casa um jovem com uma sacola nos braços. Ele aproximou-se de João Messias e disse:
_ Vi-o através da janela e trouxe algumas coisas para você comer. Aqui tem panetone, um pedaço de peru, algumas frutas e refrigerante.
_ Obrigado, meu jovem! - agradeceu João Messias, pegando a sacola.
_ Posso sentar-me um pouco? - perguntou o jovem.
_ Claro, fique à vontade!
O jovem sentou-se, dobrou as pernas elevando os joelhos, apoiou os braços sobre eles e perguntou:
_ Como você se chama?
_ João Messias. E você?
_ Eu me chamo Marcelo!
Há quanto tempo você mora nessa casa? - perguntou João Messias, com os olhos fixos no Papai Noel de gesso.
_ Desde que nasci, exatamente há vinte e cinco anos.
_ Sempre passa as noites de Natal em sua casa?
_ Sim. Eu, meus pais e meus três irmãos. Mas esta noite meu pai não está presente para ceiar conosco. Sem a presença dele, o Natal não será tão feliz para nós.
_ Por que seu pai não está presente?
_ Por que ele viajou a negócios e só voltará no dia vinte e sete.
Marcelo, você ainda tem uma família! Já parou para pensar quantas pessoas não a tem?
Marcelo olhou nos olhos de João Messias e notou que a tristeza descia-lhe pelo rosto em forma de lágrimas.
_ Desculpe- me. Eu aqui me queixando da ausência de meu pai, enquanto você aguarda sozinho e triste o amanhecer.
_ É, eu não tenho escolha, pois não tenho mais ninguém. Mas houve um tempo em que eu fui feliz ao lado de minha família. Comemorávamos o Natal sempre juntos. Montávamos a árvore na sala, decorando-a com luzes, sinos, bolas coloridas, miniaturas de Papai Noel e estrelas douradas. E preparávamos a mesa para a ceia. Tudo era divino e maravilhoso como é com toda família cristã. Mas desde meus doze anos, quando perdi minha família, o Natal deixou de existir para mim.
_ Como perdeu sua família?
João Messias enxugou as lágrimas com uma velha camisa e disse entre soluços:
_ Tudo aconteceu numa noite de Natal... Estávamos reunidos para a ceia: eu, meus pais e meus seis irmãos... Pedi licença e fui ao meu quarto buscar uma mensagem que eu havia escrito... Ouvi uma rajada de metralhadora. Corri até a sala e vi minha família, morta no chão. O choque foi tão grande que meu coração parecia que ia estourar no peito... Fui até a porta e vi um homem, usando uma roupa de Papai Noel, afastando-se com uma metralhadora na mão. Ele dizia entre gargalhadas: “Feliz Natal a todos, feliz Natal”.
_ Quando viu o assassino se afastando, o que você fez? - perguntou Marcelo, com um tom de revolta na voz.
_ Não consegui fazer nada. Minhas pernas estavam trêmulas e meu cérebro bloqueado pelo choque, perdido diante de tanto terror... 
Depois saí vagando pelas ruas da cidade.
_ Se você ao menos tivesse visto a cara do assassino, mas usando um gorro e uma barba de Papai Noel...
_ Eu sempre soube quem é o maldito assassino - interrompeu João Messias. Só existem duas criaturas que possuem as gargalhadas e a voz que ouvi naquela noite: uma é o diabo, a outra o assassino.
_ Se sempre soube, por que não fez nada?
_ Porque ele receberá o mesmo presente de Natal!
_ Você pretende matar a família dele?
_ Eu não! Papai Noel fará isso para mim.
_ Você está ficando louco?
João Messias sacudiu a cabeça de um lado para outro, esbugalhou os olhos e disse:
_ A loucura habita em todos. Muitos se consideram lúcidos por ela estar adormecida. Mas, diante de tantas atrocidades, ela desperta e vem à tona.
Marcelo, disfarçando o medo que começava a possuí-lo, levantou-se e disse:
_ Preciso ir agora, João Messias! Minha mãe e meus irmãos estão a minha espera!
_ Tudo bem, Marcelo! Feliz Natal, para você e sua família!
_ Feliz Natal para você também! - disse Marcelo, saindo em seguida.
João Messias deu uma última olhada no Papai Noel de gesso e deitou-se beirando o muro.
No dia seguinte, havia algumas pessoas na frente da casa de Marcelo. Estavam agitadas e falavam sobre o que havia acontecido: o jovem Marcelo, seus três irmãos e sua mãe encontravam-se mortos sobre o carpete da sala.
Foram assassinados a tiros ao lado da mesa, preparada para a ceia de Natal.
Do outro lado da rua, sentado na calçada, ao lado de uma velha roupa de Papai Noel, João Messias observava as pessoas que chegavam ao local.
No final da rua, uma criança arrastava uma faixa escrita em vermelho: “Feliz Natal a todos, feliz Natal!”

Jorge Floriano.

                                          


Publicado no livro: "CONTOS DE NATAL"
Editora: Rio-pretense - 1999.
Projeto Gráfico, Organização e Edição: Lelé Arantes.
Capa: Amândio F. Matinez Dias Jr.
Quadro da capa : Orlando Fuzinelli.
Revisão: Mirna de Lima Soares.
Editoração e Diagramação: David Rahd Neto.
Digitação: André Luiz Nogueira da Cruz.










domingo, 30 de novembro de 2014



QUE ROMEU SOU EU?

“Ser ou não ser? Eis a questão!”
Seria eu o crânio ou a mão?
Hamlet, não!
Creio que não...
Nem crânio, nem mão,
Talvez numa outra obra de Shakespeare
Um rascunho de Romeu e Julieta...
Que Romeu sou eu?
E onde está o amor da minha Julieta?

Tragédia maior do que morrer
É está vivo sem vida,
Amar... Amar e sofrer
Sem o amor da mulher querida.
Se Julieta tem outro Romeu
Que Romeu sou eu?
Talvez eu esteja no rascunho amassado
Por isso estou sempre jogado...

Amassado ou não
Jogado ou não
Julieta devorou meu coração
E o cuspiu em pedaços ao chão.
Não gostei desta versão:
Romeu, Romeu e Julieta.
Shakespeare pegue minha caneta
Risque o outro Romeu
Para que seja somente Julieta e eu.

Jorge Floriano.

Publicado no Livro: "Anuário Poético de Língua Portuguesa"
THS Editora
Editor: Lelé Arantes
Projeto Original: Lelé Arantes
Editoração Eletrônica: Kamila K. Tagliaferro
Capa: Moisés Jr.
Desenho da Capa: Maria Antonia Ferreira Arantes
Secretário: Ésio Silveira Junior
Parceiros:
Academia Rio-pretense de Letras e Cultura ( ARLC )
Academia Rio-pretense Maçônica de Letras
Instituto Cultural Jocelino Soares
Secretaria Municipal de Cultura
Sugaring - Delícias e Gostosuras
Alexandre Costa, secretário municipal de cultura
Antonio Carlos Del Nero, presidente da ARLC
Eduardo Carlessi, chef confeiteiro.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014


ASSIM RASTEJA A HUMANIDADE

Segue rastejando na lama fétida
cuspindo pútridas palavras
massacrando a humildade
gargalhando da dor de outra alma,
Não consegue ver através da crosta do egoísmo
que aprisiona e faz apodrecer bons sentimentos,
Mergulhado no poço da ostentação
incapaz de sentir uma gota de compaixão,
Segue derrubando e pisoteando o próximo
para subir um degrau aos pés da ganância,
Vai pela estrada da degradação
rumo ao vale da escuridão,
Assim rasteja a humanidade.


Jorge Floriano.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014


FALSA FELICIDADE

Olhos brilhantes
Lábios sorridentes
Corpo atraente
Tão real é a sensualidade
Tão falsa é a felicidade
Nas frias madrugadas
Desfilando pela calçada
Mariposa embriagada.


Jorge Floriano.

quinta-feira, 31 de julho de 2014


A AMPULHETA E A LÂMINA FRIA

A ampulheta e a lâmina fria
pairando sobre a cabeça cansada...
Um mergulho nas águas do passado
vendo a criança de face rosada
acreditando num paraíso infinito
onde a vida era um eterno dia.

A areia da ampulheta caindo
e o aço da lâmina fria brilhando...
As águas ficando turvas,
a criança crescendo e sentindo
que o paraíso estava se comprimindo
e que a vida tinha noites, pedras e curvas.

A ampulheta e a lâmina fria
pairando sobre a cabeça cansada...
De volta ao vale do presente,
eis o homem de face marcada
sentindo tão próximo o dia
da escuridão eterna
após o golpe da lâmina fria.



Jorge Floriano.

quarta-feira, 25 de junho de 2014


ESTRADA SEM VOLTA  -  PARTE II

Amanhece e o sol lhe oferece sua luz
com a mesma intensidade dos primeiros dias,
Por essa luz não lhe cobra nem um breve sorriso,
Então você sente, da natureza, sua energia,
separando o inferno do paraíso,
recebendo a luz que lhe alivia.
Você precisa continuar caminhando,
o tempo cura qualquer ferida.
É preciso continuar sonhando,
Pois são os sonhos que alimentam a vida.

Jorge Floriano.